HOJE SIM É NATAL

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Fumegava o bacalhau ladeado por hortaliças verdes e tubérculos amarelos, farinhentos. Estava a toalha vermelha impecavelmente engomada a suportar tudo. Os melhores pratos. Os melhores talheres. Os melhores cristais. O azevinho ao centro, a compor. A distinguir de Natal a mesa. Depois nós todos. Sem lugares marcados. Dispostos como calha, como nos apeteceu. Já fomos mais, já fomos tantos que a mãe pedia ao pai para trazer mais uma mesa, para juntar à grande dizia ela. Precisamos de espaço, de conforto, vincava. Hoje não. A mesa mais pequena, já deixou de encaixar na grande. Já não é preciso. Até porque nem agora a mesa grande se atesta. Ficam pratos por pôr. Cadeiras sozinhas. Espaços vazios, que nesta altura são relembrados a dobrar. Os rostos estão lá. Os corpos estão lá. Estão todos sem marcar presença. Ficam nos nossos sentires. Nas recordações longínquas ou mais próximas que vamos todos tendo. O avô já não está, o outro avô já não está, o pai também já se foi, o tio, a tia, já só sobra uma avó e nós todos. Ainda somos muitos, suficientes para me trazerem à memória as mais doces recordações de infância. Havia mais luz, havia mais cor, havia mais gente, sobretudo mais gente. Eu, as manas e os primos a corrermos pela casa toda, ansiosos e excitados pela meia noite que tardava em chegar. Ansiosos por saber que o Pai Natal incrivelmente faria uma paragem rápida em nossa casa para nos dar tudo o que lhe tínhamos pedido. Foram sempre os Natais mais ricos. Mais inocentes. Hoje não. Hoje desaparece o encanto. Desaparece ao toque de plins, notificações invasoras.

Comentaram no meu perfil, meteram gosto na minha foto. Vão a futilidade e a inércia de um mundo virtual apoderarem-se dos resquícios de Natal que eu queria que sobrevivessem até que o último de nós tombasse.

Hoje não. Hoje, em definitivo, não.

Todos sucumbidos pelo poder atractivo, dissocial, deste barulho tecnológico que nos corrompe o afecto e a cumplicidade. Serei o único de olhos soltos? De olhos livres? Eu e a avó. Eu porque escolhi assim, ela porque o esgotar-se do seu tempo não lhe impulsiona sequer a vontade de embarcar neste mundo alternativo. Já colocaram gostos e comentários na foto da nossa mesa, interrompe um sobrinho. Faltou pouco para um instantâneo vou ver colectivo. Eu fiquei ainda mais silencioso, vexado. Os gostos e comentários, queria-os eu ali, deles todos. Mas ninguém se movimentou nesse sentido. Nem sequer souberam medir o enfastio visível quando retomei a palavra e lhes disse, já largavam os telemóveis não? Nesse momento a avó lançou-me um olhar condoído. Fora realmente a única que me percebera. Que chato, disse a mana.

Não tens redes sociais? Não. Não tenho.

Foram imediatos os risinhos. Actualiza-te tio, toda a gente tem. Eu não quero ser toda a gente repliquei. Já aceitei os que partiram sem o quererem. Custa-me agora aceitar os que se ausentam porque querem. É como se nesta mesa apenas estivesse eu, a avó e o bacalhau. E finalmente a mãe pousou o telemóvel e no seu papel de matriarca, roubado à avó numa sucessão simples de mais vigor disse, vamos comer larguem lá os telemóveis. A ordem foi de imediato cumprida. A credibilidade da mãe era sobejamente mais eficaz que a minha e totalmente notória quando todos abandonaram, fosse nos bolsos ou no rebordo da mesa, os telefones. O bacalhau que começara entretanto a esfriar, tinha agora o fim para o qual tinha sido trazido hoje à mesa. Desfilavam as travessas. Tilintavam os talheres. Lotavam-se os copos com vinho. Mastigava-se. Conversavam. O Natal espraiava-se novamente pela mesa. Éramos enfim a família de tantos Natais. A mãe acabava sempre por relembrar como o pai se ausentava discretamente para assumir o papel de Pai Natal. Sorria enquanto o acusava de ficar mais excitado que eu, as manas e os primos. Impecavelmente mascarado lá aparecia ele. Com as barbas a disfarçarem-lhe as feições que ele temia que reconhecêssemos. O fato vermelho e a barriga produzida por uma almofada bem amarrada ao cinto. Até perdermos a inocência o pai era o nosso Pai Natal. Era a nossa realidade infantil. A sala ficava numa desordem colorida. Havia brinquedos e papel de embrulho por todo o lado. Um doce caos, concluiu a mãe. Agora já não temos crianças, disse a avó, que no privilégio condenado da sua velhice, tinha acompanhado os Natais de três gerações díspares. Tinha visto a mãe, eu as manas e os bisnetos. Foram todos diferentes. Épocas diferentes relembrou saudosa. Fixou-me piscando o olho dizendo, ninguém tinha essas geringonças, bzzz, apontando para um dos telemóveis que tinha, precisamente, acabado de vibrar. Bzzz. Ninguém era incomodado de minuto em minuto. Conversávamos. Estávamos. Líamos. Há quanto tempo ninguém lê livros? Hein? Há quanto tempo? Eu estou a ler avó. Não era para ti querido. Eu já sei que sim. Mais ninguém viria a afirmar leitura. A avó ia com o olhar a todos os cantos da mesa, a todas as caras. Entre desvios e introspecções, o silêncio reinou. O papel, as páginas, o cheiro. Se calhar já ninguém se lembra… Os écrans tácteis, as teclas, os wifis vencem. Dizem-me que estamos mais perto ao longe, mas eu refuto imediatamente. Não! Não são polvilhos de gostos que me preenchem. Troco-os por abraços. Transformava-os em beijos. Subitamente o Natal parecia desvanecer outra vez. Mas eu queria espairecer. Queria o Natal do costume, até porque depois deste momento, eu tinha a certeza que os presentes que tinha trazido iriam ser os indicados. Livros. Tinha trazido livros para todos. Foi uma tarde comprida, prometedora. As livrarias apaziguavam-me sempre. A tranquilidade duradoura de saber que naquelas prateleiras, atrás de lombadas e capas, podem estar todos os saberes e sonhos do mundo. E eu escolhi para eles os pedaços que achei mais convenientes e coniventes. Embrulhei a gosto ficções, romances, poesias. Tudo. Num papel rubro de fitas douradas. Mas não sem antes me demorar a rabiscar na contracapa dedicatórias. No da mãe relembrei-lhe novamente o pilar que ela é,
cada vez mais. Nos das manas redobrei-lhes em palavras o amor que lhes sinto. Nos restantes, desprendi-me de mim, fiz-lhes valer a importância que representam. Em todos fui eu mesmo e não apenas escritos de circunstância. Presumo que possam ser os pontos de partida necessários para a magia que surge desde o folhear das primeiras páginas. O jantar terminara. Na televisão, o Presidente já tinha desejado a todos os concidadãos o melhor Natal possível. A mana sorridente, indicou que as prendas não se iriam abrir sozinhas. Concordámos. Eu voltava a pensar no pai. Desde que ele morrera, era sempre assim. Por entre as decorações imaginava-o a aparecer novamente. Vermelho. Eléctrico. Imbuído no seu artifício natalício. Oh oh oh. Parece que ainda agora o ouço. Mas é passado. Libertei-me. Abandonei esse pensamento mais sombrio. Esses pais Natais já não voltam. Concentrei-me neste presente de memórias futuras. Parafraseei mentalmente a mãe, o doce caos. Papéis rasgados pela curiosidade infantil de saber o que escondem e fitas enroladas a jazerem no chão. É só mais um Natal afinal. O nosso. O que importa. Esperei buliçoso que as prendas se esgotassem. Quis guardar as minhas para o final. Os livros teriam que ser impactantes, expectei. Distribuí um a um. Leram todos a contracapa como sugerira. Sei que naquele momento a internet deixara de existir. As únicas conexões válidas eram entre nós todos, com o sinal de rede a marcar o débito máximo. Harmonia de sorrisos e algumas lágrimas. Abracei-os. Hoje sim! Hoje sim afinal é Natal.

 

André Marinho (Outubro de 2017)

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SOBRE O SILÊNCIO

Aquele que tudo diz
Sem nada se ouvir para os olhares surdos,
Conversas sem som!
Falar em silêncios
Entender silêncios
Conversas de olhares
Actos preciosos de quem se entende sem falar
Comunicar com o respirar
Troca de olhares com mil palavras
Respirar conforto na sua ausência
O bom que é
O bem que faz
Saber que há alguém, neste mundo,
Que carrega e guarda os nossos silêncios
Sem nada dizer
Saber que existe um alguém
Com quem nos podemos calar

Mafalda Pereira

LE RÔTI ET LE PIGEON

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Un rôti ficelé comme un bourgeois déambulait sans en avoir l’air dans les rues d’une paisible bourgade. Pas un arbre à l’horizon, on se serait cru en Provence. L’air sombre du soir dégringolait comme une soupière sur les paupières du voisinage. L’atmosphère était paisible si ce n’était les hurlements saccadés d’un marteau piqueur isolé qui mendiait sa pitance. Et les gens faisaient une haie d’honneur au rôti pour célébrer sa présence. Certains même se traînaient au sol en espérant que sa traîne de viande lèche leur corps pour le purifier d’avoir mangé trop de cinq fruits et légumes par jour – les plus pauvres bien entendu. Mais la trajectoire du paquet de chair ficelé évitait scrupuleusement les dépouilles vivantes. La vie brrr! Quel effroi! A quoi cela peut-il bien servir à qui est au-dessus de tout cela? Les rampeurs espérants avaient l’air abattu.

Un pigeon survint à Agen qui cherchait la devanture d’un magasin, mais en vain. Il se dit qu’il n’avait rien à faire en Provence et donc s’y dirigea sans tarder de toute la force de ses plumettes volontaires. Elles trépidaient dans le vent et faisaient avancer le volatile à une vitesse tellement intense qu’il se posa aussitôt dans les rues d’une paisible bourgade. Celle dont il était question dans la première phrase de ce texte qui est en train de s’écrire. Quelle aubaine pour la personne écrivant qui, se frottant les mains, se dit tout de go : « Chouette! On dirait bien qu’il pourrait se passer quelque chose par ici ». La personne se cacha aussitôt derrière une palette de fruits pour observer attentivement la scène, munie d’un crayon et d’un bloc-notes, prête à écrire la suite de l’histoire. Prête également à ne pas trop se fouler et à juste retranscrire ce qu’elle pourrait voir, sentir, entendre… La personne ne s’était pas rendue compte que la palette à végétaux présentait une intense contradiction en son sein puisque chair et fruits ne font pas bon ménage.  Sauf bien entendu avec l’aide de la fleur de sel, qui était par malheur en rupture de stock ce jour-ci – les fleuristes de sel étaient en grève, amers de n’avoir pas su négocier une élévation du niveau des salaires. L’assemblage boisé carno-fruitier explosa aussi sec dans l’air du soir, emportant avec lui dans la mort la personne qui écrit ce texte.

L’histoire se termine ainsi, faute de mains pour la continuer voire la terminer… on ne sait jamais avec les personnes qui écrivent, dès qu’elles ouvrent leurs mains, cela peut durer, cela peut ne jamais s’arrêter.
Tout juste pouvons nous retranscrire ce que quelques témoins en on dit. Ainsi, le pigeon et la chouette firent face au rôti, lui tenant à peu près un langage que le paquet de chair prit mal. Surestimant sa force, ce dernier sauta mollement sur la patte du pigeon alors que la chouette disparut, elle n’était qu’issue de l’imagination de la personne qui écrit cette histoire et qui est morte, rappelons le. Le pigeon défit le ficelage – on se serait cru à Noël – et toute la population dévora le rôti dans un silence atroce à moudre du grain. L’oiseau prit la population sous son aile, s’éleva, puis il saupoudra la Terre des germes humains. Une vieille ficelle pour faire son intéressant. Quelques années plus tard, le pigeon mourut d’une cirrhose une fois, et il ne mourut plus jamais par la suite.

Lorsque l’on se dandine dans l’admiration, il ne faut pas s’étonner de se faire bouffer tout cru. Et si une chose n’arrive jamais seule qu’une fois dans une vie, quoi de moins évident que de ne pas refuser l’inéluctable prééminence d’un peuple sous le fardeau des préséances. Encore faut-il lui dévoiler la réalité des choses, que cela fusse un rôti, ou même, en Provence. Et pour cela quoi de mieux qu’une personne vivante qui écrit? Telle est la morale de ce fabliau médiéval.

Aurélien Moreau

 

DANS UNE PELOUSE

cropped-dscn1194.jpgDans une pelouse en mousse inspirée par le froid

Se bécotaient des mousses en partance pour le bois.

Leur bateau en cale sèche leur laissait du temps libre;

Ils sautèrent dans la brèche, ils en avaient la fibre.

Des troncs de réverbères ponctuaient la noirceur

De ce débarcadère s’enfonçant dans la peur :

Poutrelles métalliques sur des vagues immobiles,

Voiles disséminées sur l’océan pané

De branches et de piques protégeant son nombril

Et des proues énervées déchirant les genêts.

Nos braves moussaillons malgré leur expérience

Etaient désorientés par la stabilité

L’immuabilité n’est pas leur tasse de thé

Et boire le bouillon devint leur espérance.

Déshydratés, perturbés

Et bientôt contaminés

Par un violent mal de terre

Sur l’humus ils se coulèrent.

Ils firent la bassine pour préserver leur vie

Attendant du secours qui ne surgissait pas

Il fallait voir leur mine pour savoir leur avis

Sur le sens et le cours, le pourquoi de ces bois.

Et progressivement l’angoisse s’envola.

Affronter par moments la cause de nos effrois

Est le meilleur remède et la meilleure issue

Des mécanismes raides qui hantent nos vécus.

Car l’existence est vague

Et puis elle aime en terre.

 

Aurélien Moreau

LE RECITAL DU PLATANE

cropped-dscn1194.jpgChaque matin, sur le chemin qui me mène au jardin botanique, je croise un platane.
Enfin, trois platanes enchevêtrés.

Ils donnent face au lac.
Installés à même le quai, leurs racines sous le goudron du chemin piétonnier qui longe la rive. Elles doivent chatouiller les enrochements qui dressent une barrière imaginaire entre eux et le lac.

Imaginaire, car je sais bien qu’entre eux il n’y a pas de limite franche
Ils communiquent.
Le platane (car il y en a trois mais en vérité c’en est un seul), étire ses longues branches capillaires vers la surface.
Et derrière, vers le lac, la montagne des Voirons, l’Est.

C’est un platane un peu laisser-aller.
Son immense chevelure pend négligemment au-dessus de l’eau.
Et pendant qu’il s’adonne, comme chaque matin, à sa rêverie contemplative,
Que respirent, chacune de ses ramifications,
En même temps, il chante.
Ce chant !
Je vous le dis, tous les matins, et les soirs, même, il chante.
C’est à s’en décrocher le cou.
Ils doivent être quatre, aller, cinq, ses oiseaux.
Leur chant est clair et exotique.
Je ne saurais, d’ailleurs, en déterminer l’espèce.

Ce dont je suis sûre, c’est que ce soprano, un de ces quatre matins, il ne sera plus là.
Il est trop fantasque.
Comme ses oiseaux,
Perché(s)

Un jour, il va s’envoler.

Mila Soda

 

PELURE D’ORANGE

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Dans la grande corbeille à fruits

Trônant sur la table du salon

Et rappelant à n’importe qui

Que la simplicité du passé

A quand même du bon

Une orange

Perdue au milieu de ses congénères

Au milieu de ses frères

Agrumes

Une orange

Parmi tant d’autres

Et je ne peux m’empêcher

De penser à toi

Je te déshabille

Mais tes vêtements

Piquent mes yeux

Amertume

Et font couler d’eux

La substance lacrymale

Me rappelant

Que tu n’es pas là.

 

Aurélien Moreau (Pontarlier, 26 août 1997)

ADOLESCENTE

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Insuportáveis ou indiferentes. Já nem os defino. Já não os sei diferenciar. O corpo foi-se habituando a esse massacre de gritos, que me oferecem todos os dias, todos os minutos e segundos. Parece que para os alimentar, eu preciso apenas de respirar, de existir… Ainda era o vosso filho. Ainda era o vosso pequeno, que cresceu sem vocês me terem preparado para isso, sem sequer, algum de vós ter dado por isso. Deixaram-me cair e levantar sem por uma vez me lamberem as feridas. E eu era vosso, assim como sentia que vocês eram meus. Mas cresci e vi que cada um de nós optou por fazer caminhos diferentes. Sem contactos, sem comunicações. Eu adolescente. A querer-vos como guias, a querer-vos como aliados da viagem, desta travessia dolorosa da adolescência. Tantos porquês! Tantas transformações… Sou o quê? Criança? Adulto? Onde estavam nessa altura, pai, mãe? Estavam nos gritos que me dilaceravam os tímpanos e desfiguravam a mente. No cinto que me estalava nas costas. No jantar, que tantas vezes era um amargo nada. Lágrimas? Lágrimas tantas. Noites de insónias, onde eu combatia vocês e o mundo. Conflito infinito neste corpo em constante mudança. Perceberam alguma vez isso? Viram-me frágil, viram-me céptico. Zero vezes correram em meu auxílio. Outras zero vezes me abraçaram. Um beijo ou um qualquer carinho fugidio, mesmo que forçado, talvez tivesse alterado o destino. Talvez tivesse promovido o amor entre nós todos. Desleixamo-nos. Eu e vós… Pai, mãe! Os vossos defeitos vão comigo. Os meus também estão cá todos, a lembrarem-me que não existem perfeições. Mas que existem dentro e fora dos sonhos, cumplicidades ternas de um amor que deveria ter sido incondicional. É assim que funciona em todo o lado. Cria e progenitores. Laço único. Agora fecho-me em mim. Preso em mim. A sentir-me como vosso inimigo. Tantas vezes castigado pelo silêncio, outras tantas pelos vossos insultos, que eu apontava numa lista e guardava no coração. Acabo por ser esse ser estranho que o teu e o teu olhar denunciam. Sou também o arrependimento que o vosso coração sente. Não nos merecemos. Adeus. O pai foi o último a chegar a casa. Veio o mais depressa que pode, quando a mulher lhe ligou, sem conseguir explicar o que fosse. Percebeu a tragédia pelo pranto ininterrupto. Junto ao corpo, em soluços, a mãe ainda com a carta, nas duas mãos, olhava o corpo como se o quisesse ressuscitar com o olhar. O pai atordoado, sem saber o que fazer. Lágrimas e mais lágrimas, foi o que de espontâneo saiu. Verificou o corpo, que já estava gelado. Que já tinha partido com o respirar último. Ajoelhou-se então e leu a carta, as lágrimas dobraram e impediam-no de ler com discernimento. No fim, abraçou a mulher, a mãe do agora cadáver. Ela retribuiu de imediato o abraço. Os pensamentos de ambos em uníssono, reflectiam remorsos e culpas. Falhas parentais. Falhas de amor. Acabou-se-lhes este ciclo. Iniciara-se agora o do luto eterno.

André Marinho ( Outubro de 2016 )