VARANDA DO MUNDO

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Sente-se o calor desmotivar os pensamentos. Respira-se a custo, com os pulmões desprecavidos do ar  rarefeito que inunda pesado os alvéolos, habituados a outro sabor.  Estou longe, mas sempre perto. A varanda do mundo só alcança pensamentos, porque na paisagem, no fim da paisagem, só as lembranças se esfumam. O horizonte a impor-me a distância inglória. Quilómetros muralhados, com a essência desperta da saudade. Pensar estupidamente, que se eu gritar vou ser ouvido. Como se a curvatura da terra, associada ao mar que nos separa, por formas mágicas pudesse amplificar a saudade carregada no grito de te querer já aqui. Mas tu és a lembrança mais presente. E relógio algum se pacienta para no longo correr dos dias me marcar todo o tempo que penso em ti. Agora mais, agora menos, mas agora sempre. Apareces-me quando eu quero e quando eu não o espero. Apareces. Lembro-te. No limite de tudo, sinto o teu cheiro. Vibro assim, como se te fosse tocar. Depois vibro, novamente, mas agora, na inglória certeza de te saber longe. Prisioneira do que a vida nos trouxe. Saber que vamos ser um, mas que para isso testaremos a sanidade dos nossos sentimentos. E na maturidade controlada, perderemos a razão que nos apraz e que agora a todo o momento nos desconcerta e nos faz duvidar de tudo o que fomos e pensávamos que sabíamos. Depois, suavemente, é a memória da tua pele que me chega aos dedos. Arrepios doces de imaginar. De imaginar-me a explorar-te ternamente. A magicar os meus beijos a levitarem-te o corpo. Um corpo receptivo ao prazer. Disponível, ansiando que só pare quando o tempo já não for possível de ser contado. São memórias acordadas pela a razão perdida por questões etílicas, que me aumentam o querer e a vontade de te ter para sempre. E eu sei-te longe mesmo se tu és perto. Mesmo se imagino o vivido e projecto ao longe o que há-de ser vivido. Onde és presença constante, comigo ali ao lado a absorver-te. A ter a plena certeza que os nossos mundos, vão-se entrelaçar, unificados na felicidade constante de sermos nós próprios, sem máscaras, sem entrelinhas, sem imaturidades. Do sonho à realidade. Da vontade ao mais que justo e merecido. Do eu, do tu. Do nós. Do sempre.

 

André Marinho ( Junho 2017 )

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TON VISAGE

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Elle sort, paye et remercie. Dans l’ascenseur, la lumière crue brûle ses yeux qui ne voient qu’elle. Un taxi l’attend, il démarre et ils finissent la course dans une rue où on l’attend pour un café sans sucre. Depuis le temps qu’ils devaient se voir, c’était bien le moment d’y aller et voilà.

Le café est amer et en face, le rendez-vous qui la regarde sans un mot, se lève et vient s’asseoir à côté d’elle.

  • vous étiez si belle, pourquoi avez-vous cessé de vieillir? Je vous ai attendue toutes ces années, je vous épiais parfois en me fourrant dans une ruelle proche de chez vous. Mon coeur frappait si fort que je restais en apnée le temps qu’il se calme et qu’il oublie que c’est de vous dont j’étais fou, que c’est sur vous que je télescopais mon regard la nuit.

La tasse est vide de tout, sauf du Marc qui se colle à l’émail. Elle est impassible et se bat pour ne pas rougir, mais son front lisse comme des pavés sous la pluie se plisse lamentablement. Tandis qu’il reprend sa course lexicale, affolé par l’image de cette femme autrefois nymphe et amazone, elle entrelace ses doigts.

  • le temps vous rendait grâce, votre visage était d’une beauté… il avait la densité des gens qui ne vivent pas en vain. Je vous aimais tellement…les petits plis de votre visage m’ensorcelaient d’année en année.

Il ne peut plus s’arrêter de balbutier, incrédule et épuisé par tant d’émotions.

  • je ne comprends pas, vous étiez un volcan…vous voilà devenue un marais…Pourquoi cette indélicatesse envers vous-même?

Alors, elle pleure un déluge de larmes qui ruissèlent jusqu’au cou, jusqu’à ses seins emprisonnés dans le satin. Les sillons fraîchement repulpés se creusent à nouveau, toute cette eau qui coule efface peu à peu ce visage refait à neuf. Puis on ne voit plus que son corps. Un corps sans tête assis à une table de café. L’homme enfouit son visage entre ses mains, les yeux fermés.

Le soir, avant la fermeture du restaurant les garçons lèvent les chaises et balaient la salle à manger. Une carte de visite est coincée sous un pied d’une des tables, un des gars la prend et avant de la jeter aux ordures il lit:

 

CLINIQUE DE CHIRURGIE ESTHETIQUE

Dr. François Flint          089752146955

(reçoit sur rendez-vous)

 

 

 

 

PROSAICO

Punhas o mundo pendente, por palavras pungentes.

Punhas o mundo pausado, por palavras proféticas.

Pensamentos libertos, pela paz que equacionas.

Pensamenots libertos, pela paz que proclamas.

Podes ser mais poético.

Podes ser agora mais purificado.

Põem o poente como nascente.

Põem porquês no instante…

Personificar os deuses, predestinando prisões ao pensamento.

Por fim,

Paixões em parálise…

Por fim, perecer pontualmente…

 

André Marinhocropped-dscn1194.jpg

GRISÂTRE ET FRAMBOISE

cropped-dscn1194.jpgDans la rue sombre et muette

De ce début d’automne

S’envolent les gens gris et stressés

De cette ville sans âme

Sans âme et plurielle

Cette ville multiple et unique

Créée par ces personnes

De passage

Ou travailleuses

Au premier chef.

De quoi oublier l’esprit

De ces bâtiments

Massifs et déprimants

Mais immenses et majestueux
Derrière lesquels se tiennent des architectes

Blafards et illuminés à la fois.

Les lampadaires trouent la nuit

Comme des étoiles polaires

Vers laquelle se dirigent

Les maints et maints badauds

De cette capitale lumière.

 

Aurélien Moreau  (Paris, 23 septembre 1997)

 

DRAMA POETICO

cropped-dscn1194.jpgFoi curta a vida que passamos juntos, também nada fiz para te salvar, nem para te guardar e o pouco que conseguimos juntos, desenhar parecia mais um sumo de laranja sem cor. Tantos segundos voaram e eu não olhava para ti sequer…se calhar por coragem, não o fiz, desviei a cara. Se tivéssemos olhado um para o outro, se um no outro tivéssemos mergulhado o olhar, eu teria voltado à ser uma borboleta de asas sem escamas.  Quando olhei pela janela, vi que havia traços no chão como carvão derramado de veias alheias… Hoje procuro chamar por ti com esta voz de areia sueca e só me vêm assobios manhosos. Sei lá eu porquê! Enfim, voltando a vaca fria a questão é que não há, não há mesmo baleia suficientemente gorda que engula esta insatisfação de nós.

Foste.

Zarpaste e desde então passei os meus dias em digestão de mim própria, digestão de vazio ; o pleno e o belo foram-se com a tua sombra de cabelos encaracolados. Ainda me lembro do teu sorriso quando o nosso amigo João te disse que morava numa garagem emprestada, mas num instante fugiste quando a garagem te murmurou, assim baixinho «aqui soltam-se gritos de prazer culpado».

Respiro.

 Fecho os olhos e vejo imagens do passado. Vejo um homem alto à caminhar devagar, tão devagar que quanto mais eu corro, menos o avisto. Apanhei-o! Pego na mão dele e vejo que ele tem cara de espelho, o rosto que vejo nele é suave e triste, moreno e ausente. Respiro novamente porque chove. Tudo ao meu redor parece decoração de teatro, uma mise en scène dum anónimo muito famoso. Gosto do palco em geral, mas este não me agrada.

Depois deste pesadelo realista, regressei a casa com um corte no pescoço e em cada dedo uma flor de alecrim cheirosa agarrada. O tempo é uma tira de elástico dizia o outro, e é certo, o tempo passa e os ossos ficam. Agora que a chuva levou tudo, posso fechar os olhos e imaginar como foi o dia, o primeiro dia da tua longa vida e imagino com que profissionalismo a tua mãe te deu, no primeiro dia da tua vida, um biberão de champanhe para alimentar a ressaca que já trazias ao sair da barriga dela.

 Estendida no chão da cozinha, abro as mãos e arrumo com duas pedras ou cubos contra parede. Cada vez que lanço os dados, os pontinhos desaparecem.

 Alzira Andrade

AO BALCÃO

cropped-dscn1194.jpgÉ no mesmo balcão, do mesmo café, que peço a mesma bebida.
Maldita bebida, dizem eles.
Já os copos eram a mais quando pensei em comprar uma hora do teu tempo. Mas depois vêm eles, os tais que estão sempre mais sóbrios do que eu, dizendo que o amor não se compra. É por isso que prefiro beber estas ilusões, ainda que a ressaca de realidade seja tão doentia. Mas para que raio serve tanta sobriedade? Serão eles felizes?
Peço outro copo, sentada no mesmo balcão.
Sabem lá eles o que dizem! Percebo agora que uma hora do teu tempo já não chega, precisaria de mais tempo para te convencer a ficar. Quem sabe conseguisse negociar. Oiço alguém dizer que o amor é livre, não pode ser negociado. Acho que eles precisam de beber, só assim me deixarão continuar. Permaneço de copo na mão, já não é o mesmo, tenho tanto medo da realidade… Ando nisto à tanto tempo que já não me lembro de mim sóbria. Ainda bem, logo eu que sou tão fraca, preciso de manter esta ilusão. Eu sei que preciso mais de ti, mas não te encontro, por isso que não saio deste balcão.
É nas horas perdidas com o copo na mão que essa ilusão me leva até ti. Deixo-me embriagar pela esperança de que percebas que não se pode esquecer uma mulher como eu. E depois chegam novamente eles, tirando-me o copo da mão e dizendo que mesmo que a noite seja para pensar, chegará um novo dia. Mas eu sei que do outro lado do mundo já é dia e nada mudou. Não me acordem, eu não gosto das manhãs, com elas chega a ressaca que tenho de ti e a certeza de que é exactamente de uma mulher como eu que tu te quiseste esquecer. Tenho a certeza que conseguiste, por isso agora vou beber. Quanto a eles, espero que não me tirem deste balcão, porque a bebida torna-me repetitiva e terei novamente que lhes dizer que do outro lado do mundo já é dia e nada mudou.
Lara Lia

LA CHAMBRE